Há sempre um instante silencioso antes do fim de uma viagem, aquele momento em que o quarto de hotel começa a deixar de ser seu. As roupas voltam para a mala, os carregadores desaparecem entre os lençóis, e o som distante das rodinhas na calçada anuncia que é hora de partir.

Costumo acordar mais cedo no último dia. Não por obrigação, mas por um tipo de melancolia doce. Gosto de olhar ao redor e perceber os pequenos vestígios do que vivi ali: a xícara mal lavada do café da manhã, o mapa amassado com anotações apressadas, o bilhete de metrô esquecido na cabeceira. É como visitar uma versão minha que existiu por poucos dias e que vai desaparecer assim que a porta se fechar.

O último quarto de hotel é um espelho. Nele, a gente se vê diferente: menos turista, mais humano.
Ali repousa o corpo cansado das caminhadas, o perfume das roupas que não couberam na mala e os pensamentos que, entre um voo e outro, se tornaram confissões silenciosas.

Há algo de poético em se despedir de um lugar que nunca foi realmente nosso, mas que nos acolheu como se fosse.
As camas anônimas, as cortinas padronizadas, o cheiro neutro de limpeza, tudo isso vira cenário de histórias únicas. Quantas promessas, quantos planos, quantos silêncios já se deitaram nessas camas?

Enquanto arrumo a mala, percebo que sempre deixo algo pra trás, uma mecha de cabelo, uma embalagem esquecida, um pedacinho da minha pressa. Mas o que o quarto leva de mim é invisível: um suspiro, uma lembrança, um eco.

E, no fundo, cada check-out é uma pequena despedida do que fomos naquele tempo.
Porque, por mais que as viagens pareçam mudar o mundo ao nosso redor, é dentro da gente que o movimento acontece.
Voltamos pra casa com novas rotas desenhadas por dentro. E o mapa, agora, é o próprio coração.

Gosto de pensar que os quartos de hotel guardam essas versões dispersas de nós.
Pequenos fantasmas gentis que viajam em silêncio, acompanhando o próximo hóspede, talvez, com o mesmo olhar curioso de quem descobre tudo pela primeira vez.

O último quarto de hotel é, na verdade, o primeiro de uma saudade.


👉 Nath Souza, escrevendo da França, com as malas quase prontas e o coração ainda hospedado em algum lugar do mundo.