(por Nath Souza)

Há uma mesa que eu nunca mais vi, mas ainda guardo na memória como se fosse uma velha amiga.
Era uma daquelas mesas de canto, num café de Lisboa, onde o tempo parecia andar mais devagar, ou talvez fosse eu que, naquele dia, quisesse que ele parasse de correr.

Lembro do cheiro de café fresco, das paredes amarelas gastas pelo sol e da janela que emoldurava o Tejo como se fosse uma pintura antiga.
Lembro também da cadeira de ferro que rangia, do guardanapo de papel dobrado com cuidado, e da sensação de pertencer a um instante pequeno, mas inteiro.

Aquela mesa guardou uma conversa que nunca terminou.
Duas xícaras fumegantes, palavras suspensas no ar, um riso leve seguido de silêncio, desses que não são desconfortáveis, só cheios de coisas que não se dizem.
Não era amor. Ou talvez fosse, no jeito silencioso que o amor às vezes escolhe pra existir.

Desde então, toda vez que volto a Lisboa (ou a qualquer cidade que me lembre dela ) eu procuro essa mesa.
Mas cafés mudam, ruas mudam, e as mesas, assim como as pessoas, às vezes cansam de esperar.

Há lugares que não pertencem mais ao mapa, mas à memória.
E é curioso como o corpo reconhece: o mesmo cheiro, o mesmo ângulo da luz, e de repente tudo volta.
O coração entende antes do cérebro. Ah, ele sempre entende primeiro.

68f5468aae637749171e431d574e7f88e28e4fa7

Viajar, percebo, é isso: deixar pedaços de si espalhados em mesas de bar, em bancos de praça, em quartos de hotel.
A gente vai embora, mas fica um eco, o som do riso, o resto do perfume, a marca do copo.
E é por isso que, em cada destino novo, o coração bate com um misto de reencontro e saudade, como se procurasse as versões antigas que ficaram pelo caminho.

Lisboa, com suas colinas, seus bondes lentos e suas tardes cor de mel, foi só o cenário.
O que ficou mesmo foi a mesa, aquela, que ainda existe dentro de mim, intacta, como um retrato sem moldura.

E talvez seja isso o mais bonito das viagens: perceber que o mundo muda o tempo todo, mas há memórias que se recusam a ir embora.


👉 Nath Souza, escrevendo da França, mas ainda com uma mesa reservada em Lisboa.